domingo, 3 de junho de 2012

S&S05 - Don't Stop Believing



Em algum lugar na cidade, um cara chamado John bebia seu vinho ao som de uma linda interpretação de blues, até o cheiro de cigarros e de perfume barato começar a incomodá-lo. Com uma piscadela para Janis, a cantora, John trocou o ambiente seco e aquecido pela chuva e os ventos frios da avenida.
Sarah descia a avenida rapidamente. No início da tarde havia sepultado seu irmão - A única família que lhe restara depois que perdera seus pais. -  Se sentia drenada, vazia. Não conseguia sentir nada, nem mesmo a chuva que descia sobre seu rosto pálido. Ela chegou na estação e comprou uma passagem para o próximo trem.
Dentro desse trem da meia-noite, os seus caminhos se cruzaram pela primeira vez. Sarah havia se sentado próxima a John. De alguma forma sua presença magnetizava a atenção dele. Lentamente sua respiração começava a pesar e quando o trem parou em determinada estação, ela deu um salto de seu banco e desceu do trem. Ele, preocupado com a moça, se meteu entre a porta que se fechava e tentou seguí-la.
Aquela estação estava bem cheia, e entre as pessoas e suas sombras e andarilhos por toda parte ele a perdeu. Tentou  andar um pouco mais, mas a chuva caía cada vez mais forte, e ele acabou desistindo de procurá-la. Não havia mais trens naquela noite. Teria que ficar por ali até o das cinco da manhã.
Aproximando-se da segunda entrada da estação, parou olhando ao redor. E lá na frente ele avistou uma ponte e alguma coisa naquele vulto,  aparentemente imóvel atraiu sua atenção. Quando deu por si, já se encontrava naquela ponte, tão molhando quanto podia estar.
Ele aproximou-se devagar. Ela não se movia. Olhava fixamente para as águas que batiam nas pedras do rio. A lâmpada do poste acima deles, piscou duas vezes e apagou.
Apesar de não ter idéia do que havia acontecido, ele queria ter dito alguma coisa. Algo que de repente pudesse fazer algum sentido para a moça. Havia nele essa necessidade de que pudesse fazer algo que pudesse tocá-la. De alguma forma, ele queria que ela pudesse senti-lo. Sentir que por mais estranho que parecesse e por mais desconhecido que ele fosse, ele estaria ali para ela.
Sua mão ousou encostar no braço dela, mas antes que encostasse ela se virara para ele. Seus olhos se encontraram e se existisse mesmo amor a primeira vista, por mais que essa fosse a segunda, ele sentia que era o que havia acontecido. Ela parecia tão perfeita ali naquela chuva, com toda a sua dor reprimida em seus olhos...
“- Como deve ser morrer?” – Ela perguntou. Ele que continuava olhando para ela, desviou seus olhos para o rio. “- Eu realmente não sei, mas acredito que você não vá querer saber. Pelo menos não agora, com tanta vida pela frente.” – Ela voltou a encarar o rio. “- Acreditar...” – ela repetiu. “- O que significa acreditar?” – perguntou voltando seus olhos para ele.
“- Confiar... crer... ainda que os tempos não sejam favoráveis. É como pegar uma parte de você, que você quer que seja real, e fazer com que ela se torne...” – Ele tentou.
“- Não sei se ainda pode existir uma parte de mim que possa se tornar real. Eu enterrei a que eu tinha mais cedo. Meu irmão. A única coisa que eu tinha. Vim parar aqui, exatamente por não conseguir acreditar em mais nada. Por não conseguir sentir mais nada. E estava pensando se eu conseguiria sentir alguma coisa se eu acidentalmente caísse no meio daquelas pedras. Nem que fosse apenas dor. Ou a morte.”
“- Consegue sentir isso?” - Dessa vez ele a tocou.
“- Sim.” – Ela murmurou.
“- Isso significa que você sente alguma coisa. Está viva. Eu sinto muito pelo seu irmão e sinceramente não acho precise da morte para sentir alguma coisa, não o conhecia, mas creio que ele também pensaria assim. Você não precisa morrer para estar com ele. Tenho certeza que aonde quer que ele esteja, ele sempre estará com você.
Apesar da chuva, John podia jurar que Sarah chorava. Ela de fato o fazia.
“- Eu...” – ela começou. “- disse a mesma coisa a ele na noite que nossos pais morreram. As mesmas palavras ‘Tenho certeza que aonde quer que eles estejam, eles estarão com a gente sempre...” – Naquele momento ela desabou, e John a segurou. E lá estavam eles, ele abraçando ela no chão, no meio de uma ponte, bem debaixo de uma tempestade. Ele sentia a dor dela, e ela o sustento que vinha dele. Tudo que ele queria ser para ela.
Ela chorou, pelo que parecia ter sido horas. E ele ali dizendo que tudo ia ficar bem.
Num determinado momento ela disse: “- Você nunca sabe de onde virá o seu próximo milagre...” – ele a olhou. “- Mark Schwahn... um dos escritores favoritos do meu irmão. Esse texto fala sobre acreditar também. Obrigada...” – Ela havia se dado conta de que não conhecia a pessoa que a abraçava.
“- John...” – Ele disse..
“- John. Um nome legal.” – Ela tentou sorrir. “- Sarah. Meu nome é Sarah.”
“- É.. o seu também parece legal Sarah...” – Ele brincou – “Mentira... é lindo.”
Ali, naquele momento, ela conseguiu sorrir.

Enquanto alguns ganharão, alguns perderão...
Enquanto alguns nasceram para cantar blues,
Outros dão duro para sentir novamente algum tipo de emoção...

No Final, restam apenas Estranhos esperando a próxima rodada dos Dados,
E assim, O Filme da Vida nunca termina...
É assim sem parar...

sem parar...

sem parar...

E o que tiramos de lição?
Adaptando o que o sábio Schwahn disse:
“Você nunca sabe de onde o próximo milagre virá... a próxima Emoção, O Próximo John, a próxima Sarah.
O Mundo está cheio de Magia, Então faça o seu pedido.
Você fez?
Ótimo. Agora acredite nele.
De todo seu coração.”

E nunca, Nunca Pare de Acreditar.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

S&S04 - Carry You Home


"A song for your heart,
But when it is quiet,
I know what it means
And I'll carry you home..."
(James Blunt)

- Baseado em Fatos Reais -

Abril.
Dia primeiro.
Tom assistia o último raio de sol desaparecer no horizonte enquanto pensava no que havia do outro lado.
Ele costumava dizer para sua pequena garotinha, que quando as pessoas morriam, Deus as levava para o céu, e se elas tivessem sido muito boas aqui na Terra, quando elas entravam pelo grande portão de ouro, o próprio Deus em pessoa, as dava um par de asas. Durante todo esse dia, sua garotinha era só no que ele conseguia pensar.
E se lá do outro lado, nesse exato momento, sua filhinha estaria com seu par de asas, voando de um lado a outro, como quando ela se vestiu de fada para a última festa da escola que ela havia participado antes de adoecer. Céus, ela havia ficado tão linda! 
- “Olha papai... olhe as minhas asas!” – ele conseguia ouvir... “Iguais, papai, as que eu terei no céu! Sim, papai! Porque eu serei uma boa pessoa!”
Ele nunca havia imaginado que isso doeria tanto um dia.
Um ano.
Um ano que o seu maior bem havia sido tirado dele. Um ano sem aquele primeiro sorriso logo de manhã.
Tudo havia começado com uma reclamação de que suas pernas estavam doendo.
- “Papai... mamãe disse que não era pra eu ir brincar na rua. Mas eu teimei e fui... agora minha perninha está doendo papai...”
Em um mês ela estava internada.
Com o passar dos dias foi diagnosticada a leucemia. E as suas perninha, que doíam, não eram sentidas mais.
O tempo passou, ela ali hospitalizada, veio o dia de ir para casa. A vida daquela família passou por uma série de modificações, porque além de uma pessoa com leucemia, ela era apenas uma menina. Uma menina com leucemia e com paralisia da cintura para baixo.
De tempos em tempos, ela tinha que ir a outra cidade para tratamentos, exames, e assim as coisas iam. Seus lindos cabelos negros e cacheados começaram a cair por conta da quimioterapia, e logo providenciaram a ela chapéus.
As coisas não andavam muito bem. Os tratamentos não estava surtindo efeito.
Seus pais a levavam a igrejas, na esperança de receber ali a cura.
Num determinado tempo depois, ela começava a apresentar melhoras e quando todos imaginavam que as coisas estavam melhorando, tudo aconteceu muito rápido.
Ela piorou, fora levada ao hospital e de lá, para a tristeza de muita gente que já estavam voltando a confiar em seu sucesso contra a doença, um pai se encontrava debruçado sobre sua menina de 14 anos, que não desistiu de lutar mesmo quando ninguém mais havia tido forças. Mesmo quando muitos não conseguiam mais a visitar porque não conseguiam mais a encarar daquele jeito.
Ali, logo após ter dito a seu pai: “Eu estou dando muito trabalho a vocês, não é, papai”, aquela forte garota, e um exemplo para todos nós, fragilmente se ia.
Ali, na noite a qual no dia 1° de Abril fazia um ano, um pai assistia sua filhinha respirar pela última vez.
Tom assistia sua menina, sua fada, sua boa pessoa, ser levada do mundo ao mesmo tempo em que o último raio de sol desaparecia no horizonte.
E ali, um ano depois, naquele mesmo dia, no mesmo último raio de sol, ao pensar em seu Pequeno Anjo com suas asas no céu, Tom pode apenas sussurrar:

“Tudo o que eu mais queria minha linda, era te levar pra casa.”

- In Memorian -

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

S&S03 - Fátima.

Vamos fazer uma pequena reflexão sobre o que aconteceu nos últimos dois anos antes de começar a relatar o que aconteceu na igreja nesse dia sexto do mês um desse ano.
Reverendo Marques. Este é o nosso homem. Sua esposa Elena, havia adoecido. Os médicos não descobriam o que ela tinha, mas a submetiam a exames atrás de exames. Pra cada possível diagnóstico, um possível tratamento. Sua condição financeira não era tão boa. A igreja lhe oferecia o aluguel da casa, uma pequena ajuda de custo pra manutenção da mesma. Um salário base que cobria as contas, supermercado, vestimentas (não sempre)... essas coisas do dia-a-dia. Eles viviam nessas condições. O dinheiro até dava pra sobreviver, mas não com muito conforto. E muito menos com esses “luxos” de médicos, exames e tratamentos aos quais se davam essa família. O Reverendo fazia o que podia pela sua congregação. Ajudava quem pedia por seu auxílio, hospedava pessoas dentro de sua própria casa, quando havia necessidade. Elena antes de cair de cama, fazia o que podia para dar conta da casa, da igreja, e de conseguir algum dinheiro extra pra ajudar em casa, agora como foi dito, ela estava parada por estar de cama. E como podemos imaginar o dinheiro não estava sendo suficiente. O reverendo tentou recorrer aos seus superiores. Nada podiam fazer, teriam que recorrer aos superiores dos superiores... Numa dessas nós nos perguntamos... E o amor? É, só serve pra nos emocionar em seus lindos sermões. Marques viajou para falar com o regente da Catedral, que disse que tentaria fazer o que podia. Dias depois, Marques recebeu uma cesta básica, e uma ajuda de custo de R$500,00, o que ajudou, mas não era o suficiente. Ele tentou conseguir dinheiro por fora pra não ter que recorrer novamente à igreja. Fora repreendido. Sendo assim, tentou falar com o responsável pela Catedral. Mais alguns dias depois recebera a resposta: “Eu entendo o seu drama, mas a igreja não está passando por uma boa fase, e não poderemos fazer nada por agora. Sinto muito. E estimamos melhoras à Sofia. ”
Sofia? Quem era Sofia? Ah acho que ele queria dizer Elena.
Mais um tratamento e mais um exame. Esses valores, seu plano de saúde não cobria. E ele não tinha condições de bancar. Sua congregação vendo o que estava acontecendo, embora sendo muito humilde, tentou levantar algum dinheiro para ajudá-los. Ele agradecido e emocionado com os seus fiéis, pegou aquele dinheiro que não bancava nem um terço dos tratamentos, e tentou negociar com as clínicas, que havia orçado tudo... Não ia ser suficiente.
Começando a ficar desesperado, mas sem perder sua fé, ele começou a procurar alternativas. Não havia família nenhuma para ajudá-los, seus amigos, não tinham condições. Estavam sendo dias bem difíceis... Elena só fazia piorar.
Num desses dias apareceram dois homens em sua porta oferecendo ajuda. O Reverendo não sabia o que fazer. Do dinheiro eles precisavam. As condições de pagamento, por hora, não falariam sobre isso. Ele preferiu acreditar nas pessoas e bem que ofereciam ajuda.
Na semana seguinte, em que iriam trazer o dinheiro, Elena teve que ser internada. Havia piorado exponencialmente. Marques pegou o dinheiro e pagou até mais para que a mandassem logo pro tratamento que Elena precisava. Deram início aos exames, e ela não apresentava indícios de melhora. Assim foi se arrastando aquela semana.
Na seguinte, ela melhorou, foi transferida para um quarto e podia receber visitas. Dois dias depois da transferência, no meio da madrugada ela foi pro CTI. Os fieis se revezavam no hospital, sempre trazendo uma palavra de conforto e fazendo orações. E ela continuou naquele estado até fim da outra semana, quando no meio do dia, faleceu.
O Reverendo enterrou sua esposa e voltou ao trabalho. Todos, a sua volta diziam que ele devia descansar. Tirar férias. Fazer alguma coisa. Mas ele não queria saber de nada.
Sem se lembrar das boas almas que apareceram naquele momento que ele mais precisava, um dia, pra ser mais exato, agora um mês antes desse dia sexto do qual ainda vamos falar, o Reverendo saía de sua casa quando deu de cara com os homens. Constrangido, ele voltou a agradecer pela ajuda, e contou que infelizmente sua esposa havia falecido, quando pra sua surpresa eles disseram que “Não queriam saber” e que em um mês cravados eles voltariam para receber o dinheiro, e que se ele não o tivesse, usando as palavras que eles disseram “Ele arrumaria um jeito fácil, fácil de reencontrar sua esposa no céu.”
O Reverendo não sabia o que fazer. Viajou novamente pra conversar com o Presidente da Catedral, que ao invés de lhe ouvir e tentar lhe ajudar, lhe repreendeu por “ter agido daquela forma totalmente errônea e fora dos princípios cristãos, porque quando um servo do Senhor precisa ele deve comunicar suas necessidades ao Santo da Igreja e agora, o que ele iria fazer... e...”
Ele voltou pra casa irado com a direção de sua igreja. E sem nenhuma ajuda. Resolvera deixar nas mãos do Criador. O tempo se passou, e ele não havia se preocupado em conseguir o dinheiro. Aconteceria da forma que havia de acontecer. Se haveria uma Intervenção Divina, ele só saberia quando chegasse o dia. Mas ele acreditava em Milagres, embora sua esposa não tivesse entrado na lista de espera do céu.
No dia sexto do mês um do corrente ano, o Reverendo lá estava terminando o seu sermão sobre a Ressurreição, quando seus olhos correram pelo fundo da igreja e por lá encontrou os dois homens. Estavam com seus ternos negros das outras aparições, acompanhados por outro que vestia branco que parecia se divertir com o rumo que o sermão levava. O Culto acabou, e o Reverendo se dirigiu a porta para cumprimentar seus membros que saíam como sempre fazia. Ele passou pelos homens e pediu que entrassem e aguardassem. Terminou de despedir o povo e voltou pra tentar conversar com os homens.
Que por sinal, não queriam saber se o dinheiro tinha surtido o resultado esperado ou não, ou se ele sabia que estava negociando com dinheiro sujo de agiotas ou não. O que importava era que ele tinha aceitado o dinheiro. E era isso... Ou devolveria o dinheiro com os juros, ou morreria. Era a escolha dele. O Reverendo tentou alegar que se ele tivesse aquele alto valor, ele teria usado no tratamento da esposa antes, e duas coisas não teriam acontecido: Sua esposa não haveria morrido e Aquela visita. Mas o homem de branco não queria saber. Queria o dinheiro ou ele morreria.
Do lado de fora da igreja, na praça uma moça de na faixa 16 anos, estava com seus três irmãos se dirigindo igreja. - “Moisés!” - Ela insistia com sua voz doce. - “Leve Daniel e Elias pra casa! Eu só vou deixar o bolo com o Reverendo e já vou!” -  Moisés, o irmão maior, fez com que levava os menores pra casa, mas quando viu que a irmã entrara na igreja, deixou os meninos brincando na praça foi correndo pra igreja.
Lá dentro, o Reverendo estava parado em pé de frente ao homem de terno branco que deu ordem aos outros dois que o fizessem ajoelhar. Com brutalidade os homens cumpriram sua ordem. Nesse momento Fátima gritou - “Reverendo!” - e todas as atenções foram voltadas a ela. O homem de branco que já estava com a arma na mão, irado se virou e sem pensar atirou.
“FÁTIMA!” – foi a última coisa que o Reverendo gritou antes de ser baleado também.
Da brecha da porta, Moisés havia visto o que aconteceu. Tentou correr, mas suas pernas não obedeceram aos seus comandos. Uma lágrima escorria de seus olhos quando a porta se abriu e ele se deparou com os homens saindo. Seu olhar se cruzou com o do Chefe, pelo que podemos entender, que com todo seu ar de deus fez um sinal aos seus homens, que pegaram o garoto e se dirigiram rapidamente, (porque pelos disparos, as pessoas já estavam começando a correr pra igreja) ao carro que estava estacionado na rua lateral.
Maria, mãe de Fátima chorou chamando pelo filho e tentou alcançá-los... Em vão, o carro já saía a toda velocidade pela ruela que dava na pista, onde aconteceu tudo muito rápido. O carro perdera a direção e batera em uma caminhonete que vinha em direção contrária e rodara umas duas vezes no ar antes de descer amassando todo seu teto no asfalto.
E foi assim que as coisas aconteceram naquela cidade, naquele Dia Sexto, do Mês Um.
No dia seguinte, dois corpos e um caixão semi-vazio lacrado estavam sendo velados no cemitério municipal.
Uma tragédia que nunca mais seria esquecida.

“De repente o vinho virou água,
E a ferida não cicatrizou,
E o limpo se sujou...
E no terceiro dia,

ninguém ressuscitou.”

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Considerações - S&S02 - Medley

Bom... isso é uma história que para alguns pode parecer sem graça, para outros já batida, mas foi a forma e a história que eu encontrei, pra dizer através dessas duas musicas que eu amo (Ela disse Adeus – Paralamas e Eu que não amo Você – Engenheiros do Hawaii), que sempre PODE SER bom pensar no que vale a pena ser revisto e re-dado aquela segunda chance. (Pode Ser! [Pepsi, quero minha comissão pela propaganda]) Aprendi que as coisas acontecem da maneira, e na hora que devem acontecer. A gente não entende na hora, mas depois que a poeira abaixa, tudo se encaixa. E quando a gente compreende isso, tudo se torna mais fácil. Amar, Perdoar e principalmente Viver. E como uma amiga minha disse uma vez, as coisas e as pessoas não seriam do jeito que conseguiram ser agora se antes tivesse sido de uma outra forma. O tempo nos ensina e nos amadurece. Sendo assim, vale sim reavaliar e tentar quantas vezes forem precisas. Vejamos tudo isso pelo lado positivo, ok?
E como vocês vão ver, Ninguém morreu.
Nessa pelo menos.
Agora posso voltar a matar! – Como eu sou ruim. Muahaha.

S&S02 - Medley: Ela Disse Adeus/Eu Que Não Amo Você

Eles estavam sentados em um restaurante.
Ele de frente a ela.
Tony falava empolgadamente sobre como o dia tinha sido, e como tudo que havia ocorrido poderia facilitar a sonhada viagem de comemoração, embora uma semana atrasada, de seu terceiro aniversário de casamento. Com Ela.
Marcela o olhava sem o ver de verdade. De minuto a minuto, inconscientemente, seus olhos se viravam para a sua taça de vinho na qual seu conteúdo girava inquietamente. Sua mente fugia dali sem muito esforço. Seus pensamentos... Ah, seus pensamentos!... seus pensamentos...
- Marcela? – Ele passava sua mão frente ao rosto dela.
- Oi Tony. – Ela respondeu no susto.
- Amor, você não me disse o que você acha dessa idéia.
- Ah, Tony, desculpa. Eu estou cansada. Podemos ir agora? – ela respondeu mais indiferente do que realmente queria soar.
- Meu bem, mas você nem tocou na comida...
- Eu já estou satisfeita Tony. Podemos ir agora?
- Tudo bem. – disse um Tony engolindo seco, enquanto seus olhos perdiam seu brilho, e sua empolgação com a viagem, tão rapidamente quanto Marcela se levantava de sua cadeira.
- Eu vou ao banheiro. – ela se levantou.
- Eu te espero aqui.
Assim ele a acompanhou com os olhos enquanto ela sumia atrás de uma porta ao fundo do ambiente. Ali ele ficou tentando afastar os pensamentos que lhe surgiam a cabeça. Sabia que quando ela começava assim, nunca terminava bem.
Ela voltou, eles se dirigiram a porta. Ao passar por um casal conhecido, eles acenaram e Tony, para chamar atenção de Marcela, colocou sua mão em sua cintura, para sua surpresa ela o olhou e apressou-se em direção ao carro, deixando um Tony sem graça acenando com uma cara idiota aos conhecidos.
Em casa, ele tentou conversar, o que obviamente ela não queria. Estranho isso, não? Não dizem por aí que mulheres adoram discutir a relação? Vai ver, essa afirmação não fazia tanto o estilo de Marcela. Ou ela já havia cansado de discutir o assunto em pauta.
- Vou tomar banho - ela disse.
- Quer que eu vá com você? – Prontamente, um Tony perguntou – Eu poderia, sabe, fazer aquela massagem que você gosta.
(Taí uma coisa clichê.)
- Não. Eu vou sozinha. Depois você toma o seu.
- Marcela...
Ela tinha subido. Ele se sentou após se servir de um dose de conhaque, e tentou afastar os pensamentos que o aterravam naquele sofá, com todo aquele “inverno, que entrava pela porta que Marcela tinha deixado aberta ao sair...”
Lá em cima, ela já se vestia. Seus olhos frios frente ao espelho. Ela não reconhecia a pessoa que retribuía o seu olhar. Lhe doía muito pensar no que estava fazendo, embora evitasse pensar. Afinal, era tudo que tinha feito nos últimos dias. Ela realmente sentia que precisava fazer isso. Por eles. Ela amava Tony. Tony a amava. Essa não era a questão. É que TUDO era perfeito, e isso começava a incomodá-la. Para ela, eles tinham que se dar um tempo. Ela estava começando a se sentir sufocada dentro de tanta perfeição. Suas vidas eram boas. Suas carreiras estavam de vento em polpa. Mas todo aquele amor, toda aquela dedicação... Aquela vida que outros matariam para ter, ela não estava conseguindo suportar. Há uns meses eles tinham conversado sobre isso. Eles começaram até a fazer terapia de casal. (Olha que coisa ridícula... Pessoas fazem terapias quando tem problemas... Ninguém chega a um psicólogo e diz: Então Doutor... Estamos aqui, porque somos felizes demais, somos almas gêmeas, nossas vidas e carreiras são mais perfeitas que Contos de Fadas... Ah! Faça-me o favor! Qual é “mermão!”. Isso mermo! “Senta lá Cláudia”).
O doutor sugeriu, que eles se dessem um tempo, talvez recomeçar do zero. Como ele disse, mesmo? Ah sim... Redescobrir um ao outro... Re-Conhecer... (Sinceramente, não sei quem é mais problemático.) Marcela achou a idéia muito interessante... Tony não aceitou.
E hoje como vemos... É um daqueles dias...
Ela passou um pouco de seu perfume preferido, nada muito extravagante, mas de forma que ela se sentisse de alguma forma segura para sair. Nesse caso, de casa. Tony entrou no quarto, lançando a ela um olhar o tipo “eu não te entendo!”, e se dirigiu ao banheiro. Terminou seu banho mais rápido que de costume e desceu. Ela estava lá. De pé, linda como sempre com sua roupa de luto, em um meio termo entre um formal e um informal. Da escada ele sentia seu cheiro. Ao seu lado uma mala.
- Eu estou indo para casa da minha mãe. Amanhã nos falamos...
- Marcela, você sabe o que eu penso sobre isso... – Ele começou, mas foi interrompido pelo choque do que se deu a seguir.
- Eu preciso de um tempo pra descobrir o que eu amo nessa relação. – Ela disse bruscamente. Ele pode ver nos seus olhos, uma pequena lágrima descer. – Se é você mesmo, ou a nossa vida perfeita. – Pronto, ela tinha dito o que há tempos havia ensaiado. Não da forma que havia se preparado, mas disse o que conseguiu dizer. E isso, ela tinha certeza, havia ferido ele.
Ele ficou ali, do mesmo jeito que estava que estava quando disse “Marcela... você sabe o que eu penso sobre isso...” Ela o olhou por uma ultima vez e saiu. Não sabendo o que fazer a respeito disso, Tony desceu atrás dela, mas ela já tinha ido.
No dia seguinte, que era uma Segunda ele não foi trabalhar. Ela não apareceu e não ligou. Ele prometeu que por mais que estivesse sofrendo não iria atrás dela. Terça ele também não foi ao trabalho. Carlos, um dos diretores de sua empresa, apareceu na Quarta, com alguns documentos para ele assinar. Na Quinta o interfone tocou, ele sabia que não era ela. Ela tinha a chave, não tocaria o interfone... nem se deu ao trabalho de atender. Então, veio a Sexta. O telefone tocou, e era ela. Estava indo para Londres, a filial de sua empresa lá estava passando por alguns problemas... ficaria lá por seis meses.
- Seis meses? – Ele teve que gritar no telefone...
- Sim. Vai ser bom para nós. – do outro lado ela tentava conter sua voz.
- Como você me liga depois de quase uma semana e me diz que vai ficar fora do país por seis meses?
- Tony...
- Você disse que nós íamos conversar. Quando você vai?
- Hoje. Em duas horas.
- Eu vou com você!
- Não quero que vá.
- Marcela...
- Tony, não.
Eita... entendi tudo isso, da mesma forma que vocês... Mas afinal, eles são ricos, não tem que se explicarem e muito menos se fazerem entender...
Resumindo, ela foi. Ele ficou o resto do fim de semana em casa, se remoendo e chorando pelos cantos, e na Segunda estava de volta à ativa. Duas semanas depois ela ligou, ele estava em uma reunião. E ele não retornou sua ligação. Dois dias depois, ela havia marcado uma vídeo conferencia com ele, que ele fez questão de não dar as caras. Em um mês ela veio buscar alguns documentos e resolver algumas coisas, aproveitou para marcar um almoço com ele, que ele não pode ir, porque estava passando uma semana com sua mãe no Canadá... Três meses depois ele resolveu ligar mas não conseguiram se falar por causa dela estar dessa vez em uma reunião. Depois disso... um largou mão do outro.
Resolvido os problemas, nos seis meses de prazo que ela havia dito, Marcela voltou pra casa. (Da mãe dela.) Ligou para duas amigas, e marcou um jantar que por coincidência, se é que isso existe, era no mesmo restaurante que Tony estava com Anna. Quando ela entrou, seus olhos se cruzaram (coisa de filme mesmo!) Ela tentou dizer algo a ele com aquele olhar... isso antes dos seus olhos serem congestionados pelos olhos de Anna. Marcela se sentou com as amigas, na varanda do restaurante. De lá não dava para ver Tony. Quando elas saíram, eles conseguiram se esbarrar...
- Tony! Oi, como você está? – eles se abraçaram.
- Bem e você? De passagem?
- Pois é, não... – ela respondeu sem graça – Eu tentei te ligar algumas vezes, mas você não me retornou.
- É, tenho andado muito ocupado com a empresa nesses últimos seis meses... Estamos fechando muitos contratos internacionais...
- Que bom saber... Nós conseguimos resolver os nosso problemas de Londres também...
- E? - Ele a encarou sério.
- E... agora está tudo nos eixos de novo... – ela suspirou
- Não me referia à empresa...
- Sim... é claro... acho nós precisamos conversar, não é?
- É... vamos marcar qualquer dia.
- Por favor, eu sei que você está magoado, mas não me venha com essa de qualquer dia... O que há? Tem alguma coisa a ver com a moça lá dentro?
- Magoado? Fala sério, Marcela... você sai de casa, me liga uma semana depois dizendo que está se mandando pro exterior, e pensa que vai me encontrar magoado? - Dessa vez ela teve que engolir a seco. - E Não... Anna é a noiva do Carlos. Eu vou ser padrinho deles. Saberia disso se estivesse aqui.
- Ok. – ela abaixou os seus olhos - Então tá... você me liga qualquer dia, ou eu te ligo?
Ele parou, pensou um pouco... Passou em sua cabeça dar as costas e ir embora, mas quando percebeu, a pergunta já havia sido feita...
- O que mudou pra você?
Ela foi pega desprevenida.
- Muita coisa, ao mesmo tempo que nada. – ela começou - Esses seis meses serviram pra eu ter certeza, de que a única coisa que eu preciso na vida é você.
Ele a olhou. Ela continuava linda. Até mais se é que pode ser possível.
- E o que você me propõe?
- Recomeçar, seria um ótimo começo! (Sim, ela disse isso.) Se você me aceitasse de volta, é claro.
Ele olhou no fundo dos olhos dela. Ele acreditava que os olhos eram mesmo a janela da alma. Por essa razão e por toda a sinceridade que ali ele encontrou, ele pode redescobrir tudo aquilo que ele havia guardado em uma caixa de lembranças...
- Tudo bem... – sua voz embargou - Seria um ótimo começo... Recomeçar – ele sorriu – É claro...
- Obrigada! Não vou te decepcionar de novo... - Ela disse entre todas aquelas coisas clichês... Ela chorou, eles se beijaram, marcaram de sair no outro dia.
Em um mês eles noivaram de novo, em um ano renovaram seus votos... E na véspera do (segundo e bem sucedido) aniversário de três anos do casal, veio Emily... a primogênita da família feliz... E todos aqueles “dez anos” que Tony havia envelhecido naqueles seis meses, jamais foram recordados.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O Chamado..

Meu nome é George. Nascido em 10 de Janeiro de 1988. Tendo como data de óbito, 10 de Janeiro de 2008. Curioso não?
Não tanto quanto o fato de eu estar aqui, para lhes contar como foi que tudo aconteceu.
Claro que é não comum assim que pessoas voltem para revelar segredos do além túmulo, então fico satisfeito que eu seja uma dessas pessoas privilegiadas.
Sem mais delongas... Dizem que quando se está perto da morte, algumas pessoas vêem coisas, outras ficam loucas, ou outras simplesmente atendem ao chamado e simplesmente se vão. Comigo foi assim. Exatamente assim. Ouvi-a me chamando e cá estou eu.
Eu me recordo bem daquele dia. Eu me levantei atrasado para o trabalho, me arrumei e saí. Tudo estava singularmente diferente. Não sei bem se pelo fato e estar me sentindo meio perdido na minha cidade, afinal, tinha passado um bom tempo fora (Estava de Férias, fim de ano, sabe como é... Pensando em tudo que não tinha alcançado no ano anterior, e imaginando se o que havia projetado pra o novo ano, se realizaria, ou se continuaria como tinha sido todos os outros anteriores... mas isso não vem ao caso, não vamos perder o foco.), o que importa saber é que eu me sentia... deslocado... não sei bem se essa seria a palavras apropriada, mas você caro leitor, há de encontrar um sinônimo a altura para essa minha declaração. Cheguei ao meu trabalho, após ter olhado a cidade ao redor, ainda me sentindo como se não fizesse parte dessa vida. Saí para resolver algumas coisas, tentei encontrar nos rostos que eu via, algum conhecido, que pudesse me receber e me fazer sentir em casa. Não o encontrei.
Retornei ao trabalho. Nesse ponto da história, eu já não estava me sentindo fisicamente bem. Não consegui completar meu expediente.
Saí, tentei encontrar uma amiga, para saber como iam as coisas com ela. Tinha essa coisa de me preocupar com os outros, me envolver com seus problemas, tentar estar lá para eles. Talvez para que eu não precisasse, sei lá, gastar meu tempo comigo, andando desacompanhado dentro de minha própria mente, para constar, o que dizem ser muito perigoso: Andar dentro de sua cabeça sem que tenha alguém para te vigiar. Estranho isso, não? Mas confesse, vai... é bem legal.
Prosseguindo, eu desisti no meio do caminho. Algo me fez voltar. Seria uma força obscura? Será que foi o Destino? Estava escrito que seria assim? Eu em algum momento interferi no segmento da minha história como ser humano? Seria uma Borboleta batendo suas asas em Tóquio, para que fosse causado esse Furacão ao invés de em Nova Iorque, aqui, exatamente onde eu estava? Será que se eu não tivesse voltado, teria sido diferente? Seria Carma? Acredite! Sempre existem perguntas, e sempre existirão... tanto dessas quanto as clássicas: Por que eu? Por que agora? O que eu fiz?... Como eu disse, sempre existirão as perguntas... Sempre perguntas. Mas nos falta quem traga as Respostas.
Como eu disse, perto da morte, uns vêem coisas, fazem contatos, e coisas como essas.. No meu caso, eu ouvia. O meu Nome. Isso nunca foi um bom sinal, como já diziam os antigos...
“Quando ouvir seu nome sendo chamado, quando não existir de fato alguém que esteja o chamando... Não responda... É a Morte...”
Outra coisa que eu sempre achei legal. E isso também é muito estranho...
Fazer o que? EU sempre fui muito estranho...
Comecei a descer em direção a minha casa. E ouvi “George!” não me virei, não procurei, porque eu não conhecia ninguém com aquela voz... e tinha o costume também de só atender depois do segundo chamado... e foi logo depois daquilo que finalmente vi um rosto conhecido.
Parei para falar com uma amiga que havia um tempo que não a via... fiquei muito feliz, afinal eu sentia saudades de uma pessoa e tinha a reencontrado... coisa que alguns, se é que alguém sentirá a minha falta, não teriam a oportunidade de sentir ao me ver, pra falar a verdade, nem me veriam novamente!...
Me despedi dela, logo em seguida ouvi “GEORGE!”, senti um arrepio e pensei comigo: “Por que não agora?” Sorri de leve inclinei lentamente minha cabeça, em direção a voz e finalmente disse: “Oi.”
Foi aí que me perdi de vez. Alguma coisa acertara a minha cabeça. Segundos depois, eu pude ver. Pessoas se amontoando, uns tentavam ajudar, outros pasmos com o ocorrido, outros se recompunham do susto e procuravam por mais feridos. Mas apenas eu tinha sido acertado. Me parece que uma pequena parte de uma parede do prédio em construção pelo qual eu passava tinha caído. Em cima de mim.
Trágico não é? Não mais pra mim.
Fico feliz por poder compartilhar com vocês o que aconteceu comigo. Queria poder ficar mais, e falar de como o outro lado é, mas infelizmente, não me é permitido. Pelo menos não agora... e Sinceramente, não sei se será um dia...


Afinal... São tantas Perguntas...


Mas ainda não serei eu a trazer as Respostas...

domingo, 10 de outubro de 2010

Stories about Songs - The Project

Então Galera,


Por ser o meu primeiro texto de interação com os leitores, gostaria de agradecer a todos pela disposição de seu tempo, para estar aqui.

Stories about Songs, é o meu mais novo projeto, pra aqueles momentos que a minha Síndrome de Escritor ataca.

   Num dia desses normais, andando na rua, com minha cabeça na lua, ouvindo musica no celular, quase sendo atropelado por trens, ônibus, carros, bicicletas e carroças, junto com a LUZ! Me veio a idéia, de criar histórias baseadas em músicas que eu gosto.
   A "Lanterna dos Afogados" foi o projeto experimental disso, e tenho recebido bons retornos acerca desse texto.
Com todo o respeito aos Paralamas do Sucesso, a idéia dessa história veio junta com a versão maravilhosa dessa música pela nossa eterna Cássia Eller, então de certa forma devo a ela, esse desenvolvimento, e à uma galera ae, de um site que discutem tentando montar análises de músicas.
  
   Espero que todos curtam, e por favor, se lerem, não deixem de comentar.

Assim que puder estarei postando outras histórias de minha autoria, sendo elas do S&S, ou não, considerando o fato de eu ter algumas outras.

Obrigado! Um forte abraço, e plagiando um dos meus professores, Um beijo na ponta do Nariz de todos!

Sejam todos Bem Vindos a Mystic River Place!

Enjoy!
  

Stories about Songs - S&S01

"Quando tá escuro,
E ninguém te ouve.
Quando chega a noite,
E você pode chorar."


Lanterna dos Afogados
(Paralamas do Sucesso)


* * *


A noite acabara de cair. Lá fora o vento característico da ponta do continente fazia a rede balançar de lado a outro. Da janela central da casa que tremia levemente, dava-se para se avistar lá na frente, sobre a rocha metros acima do nível do mar, o velho e imponente Farol. Ninguém podia negar que era uma das visões mais incríveis que se podia ter. Qualquer um morreria satisfeito, se aquela fosse a última cena que passasse frente a seus olhos.
De dentro, uma pálida e linda mulher, sentada frente a uma mesa, escrevia e contemplava a bela visão. Sentiria falta dali, quando olhasse ao redor e não encontrasse a magnitude daquela belíssima obra de arte criada pelos homens pegando carona na soberana criatividade do Senhor do Universo que produzira a matéria prima para aquela fantástica pintura.
O relógio marcava dez horas, quando ela de súbito despertou para a realidade dos fatos. Levantou-se, colocou a caneta e a folha de papel que escrevera em cima da antiga arca que ficava abaixo da janela, usando um porta retratos que continha a foto de um casal muito feliz, como peso para que a folha não voasse. Demorou seu olhar no sorriso satisfeito da moça. Sorriso tal que há tempos ela não conseguia encontrar, quando o procurava no espelho. Virou-se. Tinha que se arrumar. Não podia se atrasar para o encontro que teria.
Foi ao quarto, separou o vestido que ganhara de seu marido no ultimo Natal, que ambos tanto gostavam, e entrou no banho. Ao sair se vestiu, secou seus lindos cabelos escuros. Se perfumou. Saiu.
Sentindo o vento no rosto, inspirou. Expirou. Como era bom estar ali, pertencer aquele paraíso. Ela acreditava que poderia passar a vida inteira sem precisar ultrapassar os limites de sua varanda. Depois de inspirar novamente, desceu as escadas. Não precisaria de suas sandálias. Seguiria descalça o caminho de areia rente ao mar, que já subia e ameaçava tomar a parte branca que restava da praia, para fazer parte de suas águas negras, que há horas atrás não passavam de azuis.
Ela cruzou a demarcação de onde se dividiam areia e rocha e seguiu seu caminho por meio das pedras.
Sem muita dificuldade, pois já eram mais de onze e meia, estava escuro e o caminho já não era mais tão limpo e conservado quanto antigamente, alcançou o seu objetivo. Chegar ao antigo Forte. Encontrou a porta destrancada, como esperava que estivesse. "Será que ele já chegou?" Pensava ela. "Mas queria surpreende-lo com minha pontualidade!"
Lá de cima, a visão era totalmente diferente. Toda a magnitude do lugar era multiplicada por cada milímetro que a sensação de liberdade poderia proporcionar a um simples mortal. Estar ali, era quase como se pudesse voar. A frente, o mar e o horizonte, bem abaixo da iluminada deusa que refletia
sua majestade nas águas. O céu, negro e estrelado parecia convidativo a todos que almejavam descobrir o que os esperavam além do véu dos mundos. Virando-se para a direita, mais oceano e montanhas. À esquerda, a Praia que desistira de medir forças e se rendera ao mar, e mais rochas. Pouco mais adiante, nas pedras a confortável casa fazia-se notória, como uma criança enciumada quando perde seu brinquedo mais idolatrado.
Sem dúvidas seria A vida que ficaria para sempre na memória, por onde quer que ela fosse e seja lá com quem estivesse.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo cheiro característico da presença de quem ela esperava.
"Meu querido! Estou a sua espera!" Disse Erin, abrindo seu opaco embora não menos fascinante sorriso.
"Meu amor. Vim me despedir." Responde Kevin, em um tom de quem já finalizara o assunto, saindo das sombras e deixando que a Grande Lua iluminasse sua triste face.
"Mas você não pode me deixar! Somos um só..."
"Não torne isso mais difícil do que já é, minha vida." Retruca ele. Parecendo não ter forças e nem argumentos para continuar resistindo.
"Como você pode?" ela lhe lança um olhar de uma criança que acabara de apanhar sem nada ter feito. "Como? Você sabe que não posso continuar aqui, se você não estiver."
"Claro que pode." Uma pequena lágrima desceu pelo seu rosto. Mas ele poderia mesmo estar chorando?
"Não posso." Seu olhar se estreitando. "É a minha escolha, e nada, e nem você, vai mudar o que eu decidi."
"Erin" ele suplicou.
"Espere aqui. Eu estou chegando, Kevin."
Ela se virou. Seguiu até a pequena grade. Parou por um instante. Estaria ela hesitando? Não.
Ela subiu. Olhou novamente para ele. Uma última vez. Pelo menos naquela vida. Deu um último e gélido sorriso sentindo o vento novamente, e como Ismália, se projetou à frente cortando o ar.
Até não mais senti-lo.


***

Em uma folha: "13 de Agosto de 2010.

A noite finalmente chegou. Não tenho muito tempo e aproveito o que tenho, enquanto minha cabeça ainda consegue organizar as idéias, e colocá-las nesse papel.
Disseram que eu estava louca, e me indicaram um médico. Mas tenho certeza de minha sanidade. Só pelo fato de conseguir responder à simples pergunta: „Estou Louca?‟ sei que não estou. Um louco nunca teria a capacidade de se perguntar e responder a isso.
Se tem uma coisa que posso dizer que é real, são as experiências que tive. Eu realmente vejo, e posso não somente conversar, mas abraçar... Tocar o Kevin. Todas as noites. No farol.
Ele vem me ver todos os dias, desde que desapareceu no mar e disseram que ele estava morto. Ele pode estar morto para eles. Não para mim. Juramos um dia, naquele mesmo Farol, que nunca, NUNCA abandonaríamos um ao outro. Que não seríamos como esses casais estúpidos que são separados pela morte. Sabíamos que éramos melhores que os outros. Que o nosso amor era tão superior a qualquer outro que nem a Morte poderia nos separar.
E é isso. Eu sempre estive certa.
Nós sempre estivemos certos.
E hoje tomei uma decisão. E é mesmo a melhor coisa a se fazer. Não para vocês que são fracos e se fecham ao invés de ir atrás de suas convicções. Podem me julgar, Sociedade hipócrita, que condenam pessoas pelos próprios erros que cometem. Não me importo. Não estarei aqui para me importar.
E é isso que tinha a dizer, ou seja, deixar para vocês.
Estarei esperando por vocês do outro lado. Junto com Kevin.
Ps.: Se vale de consolo, podem ter certeza que estarei melhor que vocês.



Erin."

sábado, 2 de outubro de 2010

ELe e ElA

Foi exatamente assim que essa história começou.

Ele vivia numa pequena cidade no Sudeste do país. Nascido e criado na mesma cidade por sua família simples. O pai trabalhava na administração de uma empresa religiosa em ascensão, que no final das contas, não lhe rendera mais que perturbações. A Mãe dividia seu tempo entre os afazeres domésticos e uns pequenos bicos que fazia para ajudar nas despesas de casa. Ele ainda terminava o Ensino Médio sem maiores ambições. Tinha um serviço não muito bom, mas que o proporcionava levar algum pra casa para dar sua contribuição.
No que se referia a características dele, sabíamos que era humilde, do tipo capacho dos outros, meio bipolar, hora estava bem, hora mal,podemos considerar mais mal do que bem. Não podíamos dizer que estava apaixonado, mas tinha certa atração pela colega mais bonita de sua classe, que embora ele nunca tivesse descobrido se ela havia sacado sua imensa afeição por ela, não seria ele quem fosse contar. Era tímido demais o pobre imbecil. Mas acreditava que ela soubesse sim, sempre que ela se referia a ele, usava um charmezinho atipicamente cruel, e seus olhos brilhavam enquanto jogava seus cabelos, sem dúvidas, para que ele pudesse sentir o seu cheiro. Nesses momentos eram onde suas confusões o assolavam, queria se aproximar, mas ela era ela, e ele... Apenas Ele. Tinha medo dela, de uma possível e inevitável rejeição, assim como sempre tivera medo de relacionamentos, não era pra menos, nunca tivera sido feliz em um dos anteriores.

Ele era um babaca.

Quanto a Ela, não a garota da escola, Ela, A “Ela” da nossa história, infelizmente não temos muitas informações. Provavelmente crescia em sua família de Classe Média, na divisa de dois estados no Sul, sonhando com sua faculdade de Medicina, e com seu Príncipe Encantado que a levaria para a Irlanda, quem sabe. Sua personalidade se formava enquanto amadurecia. Altivez, ironias seguidas de perto pelo sarcasmo, sem contar o seu humor negro e inteligente caracterizavam o seu forte temperamento.

Não acho muito ético falarmos muito sobre ela, pelo fato de conhecermos melhor o lado dele nessa história. Então vamos pular tudo isso, e chegarmos logo na parte que o Destino, coloca um na vida do outro.

Bom, foi em uma noite dessas sem menores expectativas. Ele navegava em um desses sites de relacionamentos, e esbarrou em uma daquelas comunidades, que se relacionava a um filme que havia assistido há pouco. Sem hesitar, ingressou na mesma, e encontrando um tópico cuja finalidade era criar uma historia relativa à personagem do filme, sem problemas nenhum, escreveu a sua e pronto. Estava lá o nosso babaca, participando da comunidade. Sua história lhe rendera alguns comentários de alguns participantes, e de cara nosso amigo, se identificou com algumas outras pessoas.
A partir daí, o seu contato com aquelas pessoas desconhecidas não cessou mais, estava sempre lá. E num dia desses lá também estava Ela.
Suas trocas de mensagens passaram despercebidas, até o momento que perceberam que estava se firmando uma amizade entre eles. Coisa que ainda não é muito bem aceita na nossa sociedade globalizada e tecnologicamente desenvolvida. Vai se entender esse povo. Mas o fato era que ela aparecera na vida dele, no mesmo momento em que ambos precisavam um do outro. Ela precisando de apoio pra tomar decisões no que se referia a um relacionamento anterior, e ele precisando de uma cura pra sua estupidez, e de alguém que lhe mostrasse como era se sentir vivo.
Eles eram tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Se houve um caso na história da humanidade que se poderia dizer que existia duas pessoas em que realmente, uma completava a outra, era nessa história. Eram parceiros de verdade. Amigos.
Amigos de filmes, livros, músicas e quaisquer outras afinidades, desde coisas fúteis a opiniões religiosas.
Conforme o tempo passava, cada vez mais, um se tornava mais essencial para o outro. E quando deram por si, a amizade que tinham não era suficiente pra nenhum dos dois. Ambos queriam mais. Mas como se dá isso, se nem ao menos se conheciam, desconheciam completamente a vida real um do outro. Como o babaca com medo de relações estava caindo em si e percebendo que amava a irônica e inteligente projeto de médica? Como poderia ser possível?
E o tempo passava e junto com ele a vontade de estarem perto um do outro aumentava. Uma vez, ela sumiu, sem deixar rastros, ele quase enlouquecera, o que causou uma briga sem sentido, mas que servira para algo, perceberem que estavam tão interligados que alguns dias distantes do contato, ainda que virtual, correspondia ao mesmo que um martírio. Ele planejava ir encontrá-la. Sonhava com isso. Mas sua realidade ainda não havia permitido. Imaginava, projetava, das mais diferentes formas possíveis, como seria esse encontro. Sonhava com ela, procurava por ela. Buscava em cada rosto pela cidade o rosto dela.
O Tempo veio, e não facilitou nada em favor dos dois. Parecia que tramava junto com o Destino e com a Vida, que tem por hobby separar pessoas que se amam. E aconteceu que chegou a hora que cada um tinha que buscar seus próprios caminhos. A Ausência começou a sufocar o amor que os dois sentiam sem nem se conhecer. Os problemas vieram, e por fim decidiram colocar um fim naquela história, embora que isso causasse dor. Decidiram seguir os novos caminhos que a vida decidiu lhes impor, mas não sem antes prometerem guardar os momentos bons que tiveram juntos, e aquela coisa toda, de casais apaixonados... vocês sabe como é...
Assim fizeram.
Ela descobriu que seu pai viajaria pra região Sudeste, e decidiu ir com ele, decidira que pediria ao pai para passar ainda que por instantes na cidade dele. Afinal, ela queria muito conhecê-lo. Assim aconteceu. Eles procuraram o endereço dele, mas não o encontraram. Ele havia saído mais cedo e não voltaria naquele dia.
Ele tinha saído de uma reunião e iria dormir na casa de um amigo que morava perto. Esse amigo, estava ajudando ele a superar tudo o que estava passando, o aconselhara sair com outras garotas, a não estagnar sua vida. Naquela noite ele havia escrito uma carta, uma carta que continha um texto que mandaria para ela. Um último texto. No caminho um Astra Preto, encostara e de lugar algum dois caras encapuzados o cercaram, colocaram o motorista do carro para fora a pontapés. Um deles tirou o seu revólver e apontou para o motorista, disparando dois tiros em sua cara. Nosso amigo tentou se esconder. Tarde de mais, o bandido já o tinha visto. Foi ao seu encontro e meteu-lhe uma bala no meio da testa, e sem ter tempo de se despedir, o Babaca que havia se tornado um homem, desde o encontro virtual com Ela, deixou a vida ultrapassando o véu que separa os dois mundos, antes que pudesse dizer à Ela que estava indo ao seu encontro.
O sangue escorria da testa, descendo pelo ombro e seguindo seu caminho pelo braço até chegar e inundar o papel que outrora estivera preso em sua mão.
Ela e seu Pai, seguiam seu rumo, nossa garota inteligente voltaria para casa, sem conhecer seu amado virtual. No caminho tiveram que pegar um desvio. Alguma coisa tinha acontecido naquela rua, que a polícia estava ali. Enquanto o seu pai conversava com o guarda, tiveram que abrir passagem para o carro do Corpo de Bombeiros... Parecia que haviam dois corpos na rua. Um senhor e um rapaz haviam sido assassinados friamente, pelo que o policial lhes haviam contado. Imagina que coisa – pensara ela – quantas pessoas não deviam amar essas pessoas e deviam estar os esperando em casa.

Dias depois, recebera um e-mail, de um desconhecido. Nele explicava tudo o que havia acontecido. Num arquivo em anexo, havia uma imagem do que havia sobrado do papel que Ele segurava naquela noite. Com a sua caligrafia estava escrito no meio de umas manchas de cor enferrujada:

Tens minha palavra Minha Dama.
Volto para casa, mas ao findar a luz,
Estarei de volta.
À sua espera. À sua Procura.

Pronto para realizar meu anseio.
Tens minha palavra.

Estarei aqui... Por você,
Por mim...
Por nós.”